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Conto: AMOR E ÓDIO DE BACALHAU
E NEGRINHA MARION
O Bacalhau era o português mais munheca que já veio
ao mundo. Com ele, era ali na morisqueta. Se mandou pro Brasil a
fim de amarrar o burro na sombra. E não queria nem saber.
Seu lance era faturar. Pegava o batente de condutor de bonde. Linha
dezenove. No reboque, que era mais fácil de engrupir fiscal.
O bondão saía da estrada de ferro, atravessava o cais
do porto de Santos e ia até o loló do Macuco. E o
Bacalhau estava ali, fazendo chover na sua horta. Na velha base
do agrião. Dois por um, sem babado. Dois pra companhia, um
pra adiantar seu lado. E tudo o que enfurnava não saía
mais. Seu sonho era, um dia, voltar pra Portugal bem calçado.
Com a muquinha pega na cuca, o cutruco amargava o talo, mas não
chiava. Segurava as pontas. Forrava os peitos na Pensão do
Prato Feito e encostava o cadáver no cortiço do Assanhado,
boca do desespero. E era essa a escama do Bacalhau. Era só
alguém apertá-lo, com lance de escapar da zorra, e
logo vinha o deschavo:
— Ora, ora... pois, pois... Se fosse rico, não estava
atrelado ao reboque do Dezenove e morando nessa joça.
Com essas e outras, ele escapava de rifa, lista, mordida de parceiro.
Porém, não escapava do bochicho da curriola do cortiço.
O Assanhado inteiro boquejava que o portuga unha-de-fome estava
montado na grana. E, de tanto ligar suas antenas nesse bafo, a negrinha
Marion, pistoleira escolada por muitos anos de janela, começou
a paquerar o Bacalhau.
A crioula queria botar a mão na bufunfa e cair fora da piorada
que levava. E o cutruco era o seu pedal. A Marion se guiava pelas
dicas da Tabuada das Candongas, onde Mestre Zagaia dá sua
pala:
— Trouxa não precisa de grana.
E, se Mestre Zagaia diz, é porque é. Por dentro dos
assuntos, acreditando pacas na sua embaixada e na pinta de loque
do cutruco, a crioula levava fé no remelexo. Olhava pro Bacalhau
e via um bilhete premiado. E tome dengo. O portuga, que de otário
só tinha a fuça, dava carga. Se servia. Ninguém
falava em dinheiro. O Bacalhau não era mesmo desses arreglos,
e a crioula, que estava cozinhando o galo pra lance alto, deixava
pra lá os pixulés. Até que chegou o dia do
esquinapo.
A Marion, certa de que o seu cupincha estava entrutado no seu chamego,
meteu ficha:
— Tou precisada de uma grana. É pra tirar um bacuri,
que tu que tem culpa. E não pode ser.
Claro que era chaveco. E o Bacalhau sacou a jogada. A Marion não
era de parir há muito tempo. Por isso, ele cutucou:
— Deixa nascer.
Essa dica entortou a negrinha. Ela perdeu a esportiva e saiu na
linha grossa:
— Não tem disso, não. Vai bufar, mas tem que
gemer com o sonante. Pensa que eu sou palhaça? Vem cria,
tu dá o pinote e eu fico aí no ora-veja, com o nenê
berrando e tudo. Quero grana. E já!
O Bacalhau deu risada e solou:
— Sai dessa dança, crioula. Isso é pecado. Não
escutou o Santo Papa falar?
Aí foi um perereco. A negrinha viu que tinha tubulado. Fez
um salseiro. Deu banda no cutruco, que não era de comer enrolado,
e fedeu. Foi lenha dura. A moçada do cortiço veio
cheirar e acabaram entrando no pega-pra-capar. Baixou cana no Assanhado
e foi o gango todo explicar pro delegado o porquê do bate-fundo.
O delerusca só deu uma espinafração sentida
e mandou caírem fora, que o xadrez já estava entulhado
de pilantra.
Pro Bacalhau, o caso acabou aí. Mas a negrinha Marion, que
era tinhosa e não era de deixar barato, quis jogar o labrego
no chão. Apanhou uma cueca do cutruco e foi bater cabeça
no Gongá da Mãe Begum de Obá, que tinha terreiro
no Pau Grande e fama na Baixada Santista inteira.
A crioula deu uma nota e a cueca do Bacalhau pra macumbeira, e ela
botou pra quebrar. Mandinga forte. Bateu atabaque três sextas-feiras
seguidas. Tudo quanto foi santo forte veio valer pra Marion. Mas
que nada. O labrego não teve nenhum abalo. A crioula campanou
o portuga e se mancou que ele ia de vento em popa. Nenhuma carruíra
grudou no pé do pinta. O Bacalhau não caiu do bonde.
Estava se dando cada vez melhor com o mulherio do cortiço.
Ia levando em maré mansa. A crioula ficou uma vara. Se picou
de raiva e foi bronquear com a Mãe Begum:
— Tu é enganadeira. Pegou minha nota e não jogou
o desgraçado do Bacalhau no chão.
A Mãe se fez de boba:
— Não aconteceu nada com o teu homem?
E a negrinha, atucanada, berrou:
— Não! Não! Não! O português tá
mais firme que uma rocha.
A macumbeira abriu a boca:
— O cara é cutruco?
A Marion, sem entender bulhufas, selou:
— É português, sim! Português salafra!
A Mãe Begum de Obá se aliviou:
— Por que não avisou logo que o pilantra era labrego?
Daí eu não pegava o trabalho.
E, diante do espanto da negrinha Marion, a Mãe pôs
banca:
— Escuta, minha filha. Se macumba pegasse em português,
crioulo nunca tinha sido escravo, tá?
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