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Conto: AMOR E ÓDIO DE BACALHAU
E NEGRINHA MARION
Tu, que sempre pega a pior, tu, que só come da banda podre,
tu, que mora nas barrancas do rio e quase se afoga toda vez que
chove, sabe melhor do que eu que, com a vida custando os olhos da
cara do jeito que está, a negada faz qualquer negócio
pra defender o feijão de cada dia. Se agarram em fio desencapado,
matam cachorro a grito, jacaré a beliscão, catam lata
e os cambaus. Por isso, não causa espanto dizer que o Onorino
vivia de matar macuco. Profissãozinha escamosa, uma vez que,
nos esquinapos dessa vida, a fauna, a flora e a pesca da pátria
amada estão sendo esculachadas e findando por causa de gente
que, a fim de lucro ou de diversão, vão botando pra
quebrar sem medir as conseqüências. E o resultado da
presepada do Onorino está aí mesmo pra não
me deixar mentir. Mas deixa isso de lado. O que pesa na balança
é que o Onorino era caçador de macuco e todo santo
dia se metia nas matas de Mangaratiba, pra ajudar a acabar com a
espécie dessa ave e pra garantir a continuação
da sua, que era, na sua consideração, sua mulher e
quatro filhos.
Enquanto o Onorino matava macuco pra viver, Antoniel da Cruz e Adolfo
de Castro eram esportistas. Gente bem plantada dentro da sociedade,
mas nem tanto que desse pra caçar leão na África.
E como não tendo tu vai tu mesmo, os dois iam, toda vez que
podiam, pras matas de Mangaratiba, outrora paraíso dos macucos,
inhaúmas, jacus, jaguatiricas e outros bichos, mas que hoje
(a bem da verdade é preciso que se diga) se espiantaram daquele
pedaço ou foram pro beleléu por conta dos caçadores
de fim de semana. Mas o Antoniel e o Adolfo não queriam nem
saber se havia ou não caça nas matas de Mangaratiba.
Se enfeitaram de caçadores e meteram as fuças todo
embandeirados.
Levavam na mochila tudo quanto era badulaque. Facão de mato,
espingarda de grosso calibre própria pra derrubar elefante,
repelente contra inseto, cerveja em lata e um apito de chamar macuco.
A única coisa que os dois tinham a lamentar, quando, às
primeiras horas da matina, entraram mata adentro, era o cano que
o Nego Leléu deu neles. O Leléu, que não era
otário, prometeu que ia, mas logo se mancou que seu papel
na fita seria o mesmo que crioulo em filme de Tarzã e por
isso não compareceu. Aqui, ói, que o Nego Leléu
ia querer passar o dia carregando o saco dos caçadores, pra
no fim ser isca de onça. Não foi. E fez muito bem.
Mas nem por isso os otários se acanharam. Se enfurnaram na
mata serrada e foram logo assoprando o assobio de fêmea de
macuco pra atrair macuco macho.
Parece até que combinaram horário com o Onorino. Ele
entrou no mato no mesmo instante que os dois caçadores de
araque. Só que pelo outro lado. E foi o Onorino entrar, pra
começar a piar como fêmea de macuco pra atrair macuco
macho. E nessa, o Onorino foi avançando na selva de Mangaratiba,
enquanto, do outro lado, o Antoniel e o Adolfo também avançavam.
Já disse aqui, e repito: do jeito que andam matando bicho
no Brasil, daqui a pouco só vai ter caça na Praça
da República, depois das dez. Nas matas de Mangaratiba, já
anda difícil às pamparras. E a prova disso é
que, com pio de fêmea de macuco e tudo, os caçadores
bateram perna pra chuchu e não apareceu nada. Nem do lado
do Onorino, nem do lado do Antoniel e do Adolfo. Mas nenhum deles
afinou. Os três foram levando. E chegaram na serra do Rubião.
Não recuaram. Sempre piando, subiram a serra. O Onorino,
de um lado, movido pela necessidade, e o Antoniel e o Adolfo, do
outro, movidos pela vaidade. Ninguém queria sair de mãos
vazias. Se o caçador profissional chegasse no seu mocó
sem, pelo menos, ter matado um macuquinho filhote, sua filharada
ia espernear de fome. Se os dois caçadores esportistas chegassem
em casa sem, pelo menos, um macuquinho filhote, iam ter que agüentar
gozação de muita gente. E. nesse embalo, os três
iam subindo a serra do Rubião nas matas da Mangaratiba. Gente
de fibra estava ali. Subiam, assopravam o pio de fêmea de
macuco pra chamar macuco macho e não perdiam o fôlego.
Sem parágrafo E nessa toada, chegaram quase no pico. O Onorino,
de um lado, e o Antoniel e o Adolfo, do outro. Estavam quase próximos,
quando o Onorino escutou o piado do apito dos dois caçadores.
Saudou Seu Ogum, santo guerreiro da floresta, e caprichou no assobio
de fêmea de macuco.
Do outro lado, o Adolfo escutou e alertou o parceiro. Os dois firmaram
o pensamento, ligaram as antenas e ouviram o piado de fêmea
de macuco que o Onorino soltava. Retumbaram de alegria. O Adolfo,
que estava todo prosa por ter sido o primeiro a escutar o pio da
ave, botou banca e escarrou regra:
— Tá perto. Vai com cuidado pra não fazer barulho,
que esse macuco deve ser dos grandes.
E os dois, com todo o cuidado, se deitaram no chão e foram
rastejando pelo mato, rumo ao lugar onde o Onorino assobiava como
fêmea de macuco chamando o macuco macho. De vez em quando,
um dos dois dava um assopro no apito de fêmea de macuco, esperavam
o Onorino responder e avançavam.
O Onorino, caçador com mais experiência, de saída
estranhou que a resposta ao seu pio de fêmea de macuco chamando
macuco macho fosse outro pio de fêmea. Mas, como tinha sempre
idéias de jerico, falou consigo mesmo:
— Tamos roubado. Até no meio dos bichos tá faltando
macho. Vê se pode: macuco fêmea responder chamado de
macuco fêmea. Mas, já que tá aí, deixa
chegar.
Armou a espingarda de chumbo grosso e foi piando e armando a mira
na direção em que imaginava que a caça ia aparecer.
E não estava enganado. Se arrastando como cobra, o Antoniel
e o Adolfo foram se chegando. E aí, não prestou. O
ouvido apurado do Onorino escutou o barulho de galho quebrando e
mato sendo espalhado pelos corpos dos outros dois caçadores.
Assombrado com o esparramo que o Antoniel e o Adolfo faziam, apesar
do cuidado, o Onorino imaginou que era uma jaguatirica que se aproximava.
Não fez questão de conferir. Deu no gatilho e mandou
bala. Acertou em cheio nos dois caçadores. O Adolfo foi falar
com Deus direto. O Antoniel, mais feliz, ficou todo chamuscado e
teve que ser guindado para um hospital.
E o Onorino vai ter que gastar muita saliva pra rachar essa mumunha,
até se conformar que não tem mais macuco nas matas
de Mangaratiba. O homem acabou com as aves. E, pelo jeito, pra se
divertirem, vão se acabar entre si.
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