Conto: PAPAI NOEL DE LOJA


O Piroto teve na mocidade seus dias de glória. Foi a alegria do circo. Fez e aconteceu no picadeiro. Amou e foi amado. Se embriagou nos aplausos e nas gargalhadas da galera, sofreu as solicitações do sucesso, retumbou com a bajulação dos poderosos que se orgulhavam de sua amizade e se esqueceu do tempo, que passou tão rápido. E foi de repente que veio a televisão e, pelo crediário, o público do Piroto mudou de diversão. Ninguém avisou nada. Quando o palhaço abriu os olhos, era tarde. Os anos pesavam na balança. A lona do circo esfarrapada cobria uma platéia vazia. Transbordando de solidão, o Piroto ficou falando sozinho. Até o pipoqueiro, que sempre encostava seu carrinho na porta do circo, se mandou em busca de nova freguesia.

Só o Piroto insistiu. Embandeirado pela fama que teve um dia, se picou de orgulho e não teve coragem de oferecer seu talento pra máquina. Continuou batalhando, mesmo contra a maré. Cruzou pelos caminhos mais esquisitos e estreitos do roçado do bom Deus. Penou de cidade em cidade, de vila em vila, de lugarejo em lugarejo, na vã esperança de ser reconhecido por seu público. Mas que nada! No palco das espeluncas escrotas, se viu diante da indiferença. Após seus números, que outrora abafavam, não teve sequer um gesto de piedade. Muito pelo contrário. Foi obrigado a provar o gosto ruim da vaia. Perdeu a fé. E, sem coragem, se rendeu. De espinha dobrada, com a alma esfolada de tanto tirar a maquiagem da cara pálida de espanto, diante de espelhos que só refletiam fracassos, o Piroto foi bater nas portas da televisão, em busca de uma chance.

Pro velho palhaço, tudo era estranho no novo ambiente. Ninguém que transava naquele mundo de espetáculos escutara falar em Piroto. E ele se sentiu acanhado. Julgou que todos ali tivessem memória fraca. Na sua cabeça coberta de cabelos brancos, parecia impossível que os artistas, os diretores, os produtores, os autores nunca tivessem sido crianças. Nunca tivessem ido a um circo, ou pelo menos não tivessem ouvido um dia um carro-corneta anunciando, com estardalhaço, a atração do circo: o Grande Piroto.

Não compreendia, o velho palhaço, que, depois de tantas e tantas funções em ribaltas engalanadas, o anonimato fosse seu prêmio. Também, ninguém se deu ao trabalho de explicar que, enquanto ele andava sem rumo pelo interior, levando a ilusão e a magia da sua arte, uma serpente de muitos braços se alastrava e por onde passava semeava os Batmans, os Zorros, os Durango Kids, os Patos Donalds e outros bichos importados, que iam conquistando toda uma geração, muito embora nada tivessem a ver com a nossa cultura popular que ele, Piroto, tão bem representava. Nada lhe disseram. Um pouco, por acharem que não valia a pena gastar conversa com aquele velho esbagaçado; outro pouco, por falta de consciência.

O certo é que apenas ofereceram ao velho Piroto uma vaga de extra. O grande Piroto topou. Quem está a perigo perpétuo não tem direito a escolha. Não pode fazer luxo. Come enrolado sem estrilo. Pro Piroto, não deu outra coisa. Se agarrou na oportunidade com seus dedos trêmulos pelas doenças geradas pelo desamor. Se vestiu com as casacas fedorentas de bolor e naftalina dos guarda-roupas teatrais, carregou amargurado a dor das personagens sem fala e sem influência nas tramas dramáticas e complicadas das histórias que nunca eram a sua, nem da sua gente. Recebeu de mãos arrogantes o humilhante salário dos perdedores. E suas lembranças mais queridas, seus sonhos foram afogados na bebida.

Já totalmente gasto, se arrastando pelos corredores imensos dos estúdios de televisão, sem anseio algum pra lhe dar embalo, o velho Piroto parecia um fantasma acompanhando seu próprio enterro. Porém (e sempre tem um porém), num estalo, numa boa palavra, a velha chama do grande Piroto se acendeu. Foi quando um empresário o procurou para ser Papai Noel de loja. Por parte do contratante, não houve enganação. Mas como se pode saber o que vai na mente humana? O certo é que o Piroto foi tomado por um repentino entusiasmo. Sentiu-se outra vez como nos melhores tempos de sua carreira, quando era disputado pelos donos dos teatros, dos pavilhões, dos circos. A arteriosclerose é um fato. Possuído de alegria infantil, o velho palhaço acertou seu preço.

Nessa noite, em seu quarto, o Piroto rolou acordado nos pardacentos trapos que lhe serviam de lençol. Esperava aflito a hora em que ia outra vez aparecer como estrela do show. Em sua mente conturbada por tanto sofrimento, bailavam mil e um planos. Mas não tardou a vir tudo por terra. Ao dar as fuças na loja, teve uma bruta decepção. Foi encostado na parede pela patética realidade. Sua função nada tinha de artística: só devia ficar sentado na porta da loja, distribuindo sorrisos e pirulitos pras crianças. Por necessidade econômica, o velho Piroto não pôde recuar. Mesmo constrangido, fez sua parte. Mas nunca se viu um Papai Noel de olhar mais triste. Mas isso não tinha grande importância. Poucas pessoas repararam nesse detalhe. Todos estavam muito ocupados com suas compras e tal e coisa. Nem sequer notaram que debaixo do gorro vermelho, por trás das felpudas barbas brancas, dentro do grosso macacão, o velho Piroto suava em bicas por todos os poros, e que aquilo não devia fazer bem a um homem daquela idade. Deixaram andar. Natal sem Papai Noel não é Natal. E a convenção diz que Natal é legal com neve. Se o termômetro estava marcando quarenta graus acima de zero na sombra, não pegava nada. O Papal Noel tinha que aparecer como alguém que vem do frio. E o velho Piroto ficou firme, até que não pôde mais.

Foi no dia vinte e quatro de dezembro, véspera da festa máxima da cristandade, que se deu o esquinapo. A temperatura subiu muito e, na loja onde o velho Piroto vivia seu papel, o movimento era enorme. Filas e filas de crianças desfilavam diante do Papai Noel. A todas ele dava um pirulito melado pelo calor e um sorriso mecânico de profissional. A par disso, transpirava. A sua cabeça começou a doer. O Piroto se sentiu febril. Trêmulo. Sem autorização, retirou-se para os fundos da loja. Delirando talvez, confundiu o mitório com seu camarim de outras épocas. Entrou e se trancou. Estava exausto. Tirou o gorro, a barba, abriu o zíper do macacão e sentou-se na latrina como se fosse um rei. Se recostou. Uma sensação de bem-estar lhe invadiu as entranhas. Piroto se relaxou. Pensou que aquela criançada toda, em vez de pirulito, procurava ingresso pra ver o grande Piroto. Fechou os olhos e sorriu. Estava em paz.

E foi assim que ele foi encontrado, na manhã do dia vinte e seis de dezembro, pelos primeiros funcionários que vieram abrir a loja. O que prova que, no dia vinte e cinco, ninguém sentiu falta do velho Piroto, um Papai Noel de araque.


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