Crítica de ALBERTO D'AVERSA
Diário São
Paulo 10/1967
“Homens de Papel”
A peça narra a estória
de um grupo humano, homens e mulheres, cujo trabalho é o
de catar papel nas ruas da cidade, vitimas de um explorador que
compra a mercadoria oferecida pelo preço que ele mesmo determina
e que mais lhe convém. É, reconhecemos, mais uma peça
sobre o abusado tema da exploração do homem pelo homem;
só que Plínio é um autor intrinsecamente original
e sua maneira de ver a vida e os acontecimentos renova completamente
os velhos e oportunistas esquemas (fato que acontece em todas as
suas peças – “Navalha”, “Dois Perdidos...”,
“Vida de Cristo” etc). A realidade convencional dos
temas sociais é, para Plínio, simples pretexto sobre
o qual ele constrói seus personagens que, depois da tipicização
inicial de reconhecimento, vivem de uma existência dramática
imprevista e autônoma, numa liberdade absoluta de invenções
que superam sempre as iniciais convenções temáticas.
Nesta peça, a exploração é manifestada
em sua forma mais baixa e repelente, é a exploração
que um nojento criado do capitalismo, um agente subalterno e inescrupuloso,
exerce sobre gente de tão ínfima condição
social que nem pode manifestar seu legítimo protesto com
medo de perder o benefício do miserável emprego. Contudo,
também neste grupo de ralés alguém levanta
a voz da dignidade e rapidamente todos chegam a compreender que
sem o trabalho deles, sem o papel que eles regularmente entregam
cada noite, o explorador estará, por força, obrigado
a ceder aos pedidos de uma mais justa remuneração;
decidem a greve. Mas no grupo, alguém não aceita a
proposta; é uma mulher, nordestina, que chegou a São
Paulo para tratar de sua filha gravemente enferma, uma menina vítima
de constantes ataques epiléticos; inutilmente o marido se
esforça para fazê-la compreender que a união
de todos resultará em benefício também da menina;
que é necessário passar até fome para defender
o pão de amanhã; que a justiça é sempre
uma difícil conquista. A mulher pensa só e exclusivamente
em sua filha, e não aceita; fura a greve. Mas existe uma
nemese social, hoje, como antigamente existia uma “moira”,
um destino fatal, que governa as ações humanas: e
a menina, violentada por um tarado do grupo, morre. Somente neste
momento, ou seja, quando a miséria coletiva se transforma
em desgraça particular, quando os males sociais fatalmente
chegam a ser males determinados e particulares, a mulher aceita
a greve e as suas conseqüências. O explorador pressente
a ameaça, vê que a sua liderança está
mortalmente ameaçada e politicamente oferece o dinheiro necessário
para o enterro da criança. Todos então acreditam ter
vencido a batalha, o homem cedeu uma vez, deverá ceder agora
a todos os pedidos e a greve é agora levantamento e rebeldia
de todos. O explorador não tem outro caminho, para afirmar
a própria autoridade, que a luta aberta e sangrenta e, decidido,
desafia o chefe dos rebeldes. A luta é de vida ou de morte;
aquele que vencer será o novo líder. É, realisticamente,
cruelmente, historicamente, vence o mais alimentado, o mais forte,
o que mais armas tem a sua disposição. Os homens de
papel são derrotados: outra solução não
resta que apanhar os sacos vazios e voltar às ruas da cidade
a catar a imundice e o lixo da própria condição
humana.
A peça, como pode-se notar, é brutalmente social,
de uma socialidade que tem precisas alusões políticas:
é quase impossível não ver no paradigma desses
homens de papel a triste parábola dos povos sul-americanos:
bolivianos, argentinos, brasileiros, todos, todos, irremediavelmente
homens de papel.
voltar
|